Davey Woituski*
RESUMO:
O auto-retrato sempre acompanhou o ser humano em seu desejo de registrar sua imagem, sua existência. Essa busca pela auto-imagem foi se modificando no decorrer do tempo. Aqui você vai encontrar alguns aspectos dessas mudanças em diferentes épocas. O auto-retrato é o espelho do artista. Nele, o artista reflete sua imagem, sua personalidade, seus valores, sua época, sua maneira de ver a arte e o mundo.
Palavras-chave:
Arte, auto-retrato, artista.
RESUMEN:
El autorretrato siempre acompañó el ser humano en su deseo de registrar su imagen, su existencia. Esa búsqueda por la auto imagen fue modificándose en lo decorrer del tiempo. Aquí usted va encontrar algunos aspectos de esas cambias en diferentes épocas. El autorretrato es el espejo del artista. En el, él artista refleja su imagen, su personalidad, sus valores, su época, su manera de ver el arte y el mundo.
Palabras-llave:
Arte, autorretrato, artista.
*Professor, Especialista em História da Arte – UNISUL. Formado em Publicidade e Propaganda – UNISUL.
1. INTRODUÇÃO
Auto-retrato é uma forma de registro onde o próprio artista se retrata, ele é o modelo dele mesmo.
Na verdade, o auto-retrato sempre acompanhou o ser humano em seu desejo de deixar uma marca de sua própria imagem, que permanecesse, mesmo depois de sua existência.
2. PRÉ-HISTÓRIA (± 30.000 anos a.C.)
Na Pré-História, homens e mulheres se representavam com marcas de mãos dentro das cavernas. Colocavam suas mãos nas paredes e sopravam um pó colorido, marcando suas formas em locais protegidos – geralmente no fundo das cavernas, em locais tão afastados da entrada quanto possível – onde pudessem ficar gravados para a posterioridade.
Para pintar, o homem produzia suas próprias tintas misturando terra (geralmente avermelhada por ser rica em minérios) com carvão, sangue e gorduras de animais. Utilizava os dedos e, provavelmente, também pincéis rudimentares (como tocos de madeira) conforme alguns objetos encontrados por arqueólogos. (CALÁBRIA, MARTINS, 1997, p. 16)
Em verdadeiros “salões de arte” eram representados através da pintura em sua maioria, animais migratórios como cavalos, renas, veados, - animais de manada – arouques, bisões, bois – animais carnívoros – como o leão e o urso; todos eles ligados de alguma maneira ao Homem do Paleolítico, como fonte de alimento ou de veneração.
Reproduzindo esses animais parece que esses artistas primitivos estavam tentando “dominá-los”, garantindo sua fertilidade ou tornando-os vulneráveis. Acredita-se que essas pinturas serviam a ritos mágicos destinados, talvez, a assegurar o êxito na caça.
3. IDADE MÉDIA (± do século IV ao XIV)
Apesar de viver e trabalhar no fim da Idade Média – século XIII e XIV – o inovador Ambrigiotto di Bondone (1267 – 1337) também conhecido como Giotto é considerado o pai da pintura moderna.
Entre 1304 e 1306, trabalhando por encomenda em um mural chamado Juízo Final na Capela Arena, em Pádua, na Itália, Giotto deu um jeito de se incluir entre os homens retratados na parede.
Utilizando a técnica da pintura chamada afresco, pois é pintada com o pigmento diretamente na parede de reboco ainda úmida, o mural mostra Jesus Cristo com os apóstolos e os anjos, julgando os homens.
Giotto se inclui no meio dos homens eleitos ao paraíso, por suas boas ações durante a vida.
Em relação à arquitetura e à escultura, a pintura gótica teve seu nascimento tardio. As primeiras configurações góticas se deram no século XIII e predominaram até o século XV. As principais características da pintura gótica foram:
• PROFUNDIDADE: Diferente da pintura românica onde as cenas aconteciam num único plano, a pintura gótica procura dar algum movimento às figuras através da postura dos corpos e das paisagens de fundo. Porém, a ilusão de profundidade só se realizou plenamente no movimento que procedeu ao gótico: o Renascimento.
• REALISMO: As figuras são representadas de forma mais detalhada e realista. O artista tenta reproduzir os seres exatamente como eles são. Contudo, isso só foi possível no Renascimento através dos estudos de anatomia, quando a dissecação de cadáveres foi permitida, antes proibida pela igreja. (CALÁBRIA, MARTINS, 1997, p. 85)
4. RENASCIMENTO (± do século XV ao XVI)
O retrato e o auto-retrato tornaram-se realmente popular na época do Renascimento. Naquele momento da história ocidental, ao contrário da era medieval, extremamente religiosa, o ser humano tornou-se o centro das preocupações – o Teocentrismo deu lugar ao Antropocentrismo – como a fotografia ainda não existia, pintores eram contratados para registrar os rostos e corpos de pessoas importantes.
E os artistas começaram a pintar seus auto-retratos porque sentiam o desejo e a necessidade de deixar sua imagem gravada para a posteridade; sentirem-se importantes como pessoas e como profissionais; expressar em suas pinturas o que sentiam internamente, suas emoções e pensamentos; usar suas próprias imagens como assunto para elaborar obras de arte, cuidando das cores, das pinceladas, dos contornos, das texturas, das luzes.
O primeiro artista do Renascimento a realizar uma série de auto-retratos foi o alemão Albrecht Dürer (1471 – 1528). Ele se fascinou pela própria imagem quando tinha apenas treze anos e assim desenhou seu primeiro auto-retrato em 1484. Em 1500, pintou seu mais impressionante auto-retrato, com casaco de peles, idealizou suas próprias feições, barbas e cabelos longos, semelhantes às de Cristo, a pose frontal e solene conferem ao quadro uma segurança que ultrapassa a esfera dos retratos vulgares.
“Dürer acreditava que um artista, quando chegava a ser um verdadeiro mestre, tinha tanta importância quanto a de Deus ou a de Jesus”. (CANTON, 2001, p. 7)
Dürer fez seu o ideal do artista superior, ao mesmo tempo homem de sociedade e culto Humanista.
“Alimentando com afinco os seus interesses intelectuais conseguiu abranger uma grande variedade de técnicas e assuntos”. (JANSON, 2001, p. 695)
A obra considerada por alguns sendo o testamento artístico de Dürer, chama-se Os Quatro Evangelistas (1523 – 1526), em dois painéis emparelhados, cada painel mede 2.16 x 0,76m. Pinakothek, Munique.
Ofereceu-os em 1526 à cidade de Nuremberg, que se passara para o campo luterano no ano anterior. Os apóstolos escolhidos são os de maior relevo na doutrina protestante (João e Paulo voltados um para o outro no primeiro plano, com Pedro e Marcos logo atrás). Citações dos seus escritos, na tradução de Lutero, advertem os governantes da cidade para não confundirem o erro e as falsas razões humanas com a vontade de Deus; requisitórios contra o fanatismo, tanto de católicos como de protestantes. Mas, em um sentido mais universal, as quatro figuras representam os Quatro Temperamentos (e, implicitamente, outras tétradas cósmicas – as estações, os elementos, as partes do dia e as idades do homem), envolvendo, com os pontos cardeais da bússola, o Divino Ser, figura central deste “tríptico”. (JANSON, 2001, p. 698)
Em harmonia com o seu papel, os evangelistas têm uma sólida gravidade e uma grandeza que não se encontrava na pintura desde Masaccio e Piero della Francesca.
“Não é por simples coincidência que o estilo de Os Quatro Evangelistas evoca os nomes desses grandes artistas, pois Dürer dedicou boa parte dos seus últimos anos à teoria da arte, redigindo inclusive um tratado de geometria, a partir de uma análise profunda do trabalho de Piero della Francesca sobre a perspectiva”. (JANSON, 2001, p. 698)
Hans Holbein, o Jovem (1497 – 1543), nascido em Augsburg, um centro de comércio internacional no sul da Alemanha, especialmente receptivo às idéias do Renascimento, Holbein ficou famoso por pintar pessoas influentes de sua época. Em seus retratos há uma série de objetos que mostravam a personalidade e o poder econômico da pessoa retratada. Um de seus retratos mais famosos é o de Erasmo de Roterdã, padre holandês, defensor do humanismo e autor de livros que propunham reformas na Igreja Católica.
5. BARROCO (± do século XVII ao XVIII)
Mas foi Rembrandt Van Rijn (1606 – 1669), o maior gênio da arte holandesa, quem pintou o maior número de auto-retratos da história, cerca de cem. Nascido em Leider se mudou para Amsterdã aos dezessete anos. Rembrandt deixou imagens para o mundo, desde a de um jovem de vinte e três anos até a de um senhor rechonchudo, de cabelos brancos e pele marcada, em seus últimos dias de vida.
Rembrandt registrou diferentes fases de sua vida e diferentes emoções, expressões e sensibilidades em pinturas e desenhos como Auto-retrato de boca aberta, Auto-retrato de olhos esbugalhados, Auto-retratos de barba nascente. Ele fazia essas auto-imagens para investigar as particularidades de cada ser humano.
“Quererão saber que espécie de pessoa eu fui”, Rembrandt dizia. Interessante é perceber que não só a imagem do artista mudou com a idade, mas também a forma de pintar foi se transformando. As pinceladas iniciais, finas com detalhes realistas e minuciosas foram ficando mais soltas e grossas.
6. O AUTO-RETRATO E ALIBERDADE (Século XX)
Durante o século XX, os artistas inventaram mil e uma maneiras de pintar, de desenhar, de esculpir,... Por isso foram chamados de modernos. A arte ganhou a possibilidade de se expressar por vários meios. E hoje pode estar em toda parte. Os artistas contemporâneos compreenderam isso e passaram a brincar com suas próprias imagens com extrema liberdade.
Na arte contemporânea, o auto-retrato pode estar em toda parte.
7. UM INSTRUMENTO IMPORTANTE E UMA OBSESSÃO DO SER HUMANO
“Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?” Perguntava a seu espelho a madrasta da Branca de Neve. O espelho, onde a nossa imagem se reflete, sempre foi uma obsessão do ser humano. Conta-se, na mitologia da Grécia Antiga, a História de Narciso, um moço lindo. Ele não tinha consciência de sua beleza, até que um dia parou na frente de um lago límpido que refletia sua imagem. Completamente encantado ao se deparar com seu rosto tão belo, Narciso se esqueceu de comer e dormir. O tempo passava e lá ficava ele, inteiramente absorvido e enamorado de si mesmo, até que virou uma flor, que até hoje leva seu nome.
Os artistas sempre usaram o espelho para realizar seus auto-retratos, antes do advento da fotografia.
8. CONCLUSÃO
O retrato e o auto-retrato estabelecem como que uma ponte sobre o tempo e o espaço, criando uma ligação pessoal conosco. Oferece-nos a possibilidade de realizarmos uma compreensão melhor de traços de caráter e personalidade de uma pessoa em estudo, que os dados históricos não nos podem proporcionar.
Um retrato ou um auto-retrato pode também nos transportar para determinadas épocas e nos trazer um sem fim de recordações e sentimentos que certamente não seriam relembrados com tanta intensidade se não existisse a possibilidade da visualização de um espaço, onde é registrado plasticamente um pouco de história.
Desde as auto-representações: das marcas de mãos nas cavernas, na Pré-História, até os auto-retratos originais e mesmo estranhos, criados por artistas contemporâneos. O auto-retrato é o espelho do artista. Nele o artista se espelha, reflete sua imagem, sua personalidade, a imagem de seu mundo, de sua época, seus valores, o modo como vê a arte e a vida.
REFERÊNCIAS
CALABRIA, Carla Paula Brondi, MARTINS, Raquel Valle. Arte, história & produção, São Paulo: FTD, 1997.
CANTON, Kátia. Espelho de artista. 2.ed., São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.
GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro, Guanabara/Koogan, 1993.
HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. 2. ed. São Paulo, Mestre Jou, 1972, 2 vol.
JANSON, H. W. História da arte. São Paulo, Martins Fontes, 1986.
JANSON, H. W., Anthony F. Iniciação à história da arte. São Paulo, Martins Fontes, 1988.